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"As marcas da tortura sou eu": trauma, resistência e memória na trajetória de Dilma Rousseff

disclaimer: este texto, escrito em 2022, é um pouco diferente do que estou acostumada a escrever, porque foi escrito para uma disciplina de análise do discurso que cursei na faculdade. não é um texto denso ou acadêmico; é perfeitamente compreensível pra quem não entende do assunto. até porque eu não sou grande entendedora e quase tenho aversão a textos acadêmicos. mas eu quis aproveitar a efeméride do golpe (e o silêncio dos bons...) pra compartilhar esse texto, pois gosto demais dele pra deixar somente na gaveta dos trabalhos esquecidos que deixamos ao longo da graduação.


INTRODUÇÃO

Em fevereiro de 1969, a jornalista e ativista estadunidense Carol Hanisch publicou um texto fundamental para os estudos feministas da segunda onda, intitulado “The personal is political” (“O pessoal é político”). O artigo trata das sessões de terapia em grupo para mulheres sob um viés coletivo, e não individual. Para a autora, essas sessões são uma forma de ação política, uma vez que, atravessada por sua condição de mulher, ela enxerga nas outras participantes questões semelhantes às dela, em maior ou menor grau – questões que não têm solução individual, mas somente coletiva.


Nota-se, assim, como as estruturas sociais constituem e moldam o indivíduo de acordo com a ideologia dominante. Retomando Althusser (1970, p. 43): “Designamos por Aparelhos Ideológicos de Estado um certo número de realidades que se apresentam ao observador imediato sob a forma de instituições distintas e especializadas”. No caso das mulheres, pode-se pensar em instituições como casamento/família e igreja – resultado dos papéis sexuais impostos a homens e mulheres, o que as restringe à esfera doméstica e as afasta da esfera pública.


No Brasil, a luta das mulheres pela conquista de espaços como a política ganhou força no final do século XIX com o movimento sufragista, tendo grande influência dos movimentos de mulheres da Europa e Estados Unidos. Mulheres como Leolinda de Figueiredo Daltro, Bertha Lutz e Júlia Lopes de Almeida estiveram à frente da mobilização pela participação feminina na política – que implicava o reconhecimento de mulheres como cidadãs, passíveis de votarem e serem votadas (MARQUES, 2019, p. 28). Foram essas mulheres que abriram caminho para que, em 2010, a economista Dilma Rousseff fosse a primeira presidenta eleita do Brasil, e reeleita em 2014.


Sua trajetória é um exemplo do entrelaçamento do pessoal e político. Presa aos 19 anos pelo regime ditatorial, Dilma passou três anos na prisão em meio a sessões de tortura. Em seus depoimentos, ela sempre deixa claro como o período a transformou e marcou profundamente, o que de certa forma – e para algumas formações discursivas – transformou sua figura em uma representação indissociável da resistência à ditadura militar brasileira.


Por isso, propõe-se uma reflexão sobre trauma, tortura, resistência e memória a partir de três momentos da trajetória política de Dilma. O primeiro deles é composto por fragmentos de um depoimento dado pela ex-presidenta ao Conselho dos Direitos Humanos de Minas Gerais, em 2001; o segundo, pela sua resposta, ainda enquanto ministra da Casa Civil do governo Lula, ao senador Agripino Maia, a respeito das mentiras durante as sessões de tortura; e, por último, o jingle de sua campanha de 2014, que evoca a tentativa da construção de uma memória sobre o período militar.


A TORTURA E O TRAUMA: O DEPOIMENTO DE DILMA AO CONSELHO DOS DIREITOS HUMANOS

Christian Dunker (2019, 1m37s) compreende a tortura como uma “experiência radical que retoma e atualiza aquilo que seria nossa posição mais básica, elementar, segundo Freud, quando chegamos ao mundo – a situação do desamparo”. É impossível ser a mesma pessoa depois da tortura, pois ela visa provocar a guerra entre mente e corpo, uma dissociação do sujeito, que deixa de sê-lo para ser objeto de crueldade de alguém: “a tortura provoca uma ruptura da identidade que, em parte, é definitiva, irreversível” (GINZBURG, 2010, p. 143).


Nesse sentido, o trauma dessa violência demanda uma elaboração por meio da linguagem, embora ela não seja capaz de dar conta de todo o acontecimento. É como se a verbalização fosse capaz de atingir somente o entorno do trauma; sempre fronteiriço, nunca chegando ao seu cerne. O testemunho, portanto, é da ordem de algo que não é capaz de ser dito, “de um furo presente na linguagem” (MARIANI, 2016, p. 50).


Seja no âmbito jurídico, histórico ou psicanalítico, o testemunho se associa diretamente à memória. Em situações de extrema violência, como é o caso da tortura sofrida por Dilma, o testemunho é uma ferramenta de elaboração para o sujeito: “no confronto com uma história que repetidamente violenta e oprime, o testemunho materializa, então, os equívocos que a constituem como lugar contraditório, pois afetam a univocidade linguística do sujeito, levando-o ao encontro do real histórico” (BOCCHI, 2017, p. 6).


Em 2001, dez anos antes de ser empossada como a primeira presidenta eleita do país e ainda no cargo de ministra da Casa Civil do governo Lula, Dilma prestou depoimento ao Conselho dos Direitos Humanos de Minas Gerais (Conedh-MG) revelando detalhes das torturas que sofreu durante o período que passou na prisão. Fragmentos desses depoimentos vieram à tona somente em 2012 e foram publicados em diversos veículos. Em março de 2014, a pré-candidata à reeleição publicou os fragmentos em sua página no Facebook. A publicação é acompanhada de uma imagem – que não foi capturada durante o depoimento –, em preto e branco, na qual se vê Dilma em um palanque, visivelmente emocionada; um trecho da sua fala é posicionado na imagem: “Fiquei presa três anos. Descobri que estava sozinha. Encarei a morte e a solidão. Lembro-me do medo quando minha pele tremeu. Tem um lado que marca a gente o resto da vida”. O texto da publicação se inicia com um outro trecho de sua fala: “As marcas da tortura sou eu”.


Logo de início, lendo apenas a frase da imagem e do início do post, é possível apreender alguns dos efeitos provocados. A imagem em preto e branco – cujo efeito é de dramatização –, mostrando Dilma em uma situação de certa vulnerabilidade, apresenta um contraste: trata-se de uma figura política importante, em uma posição de poder (no palanque), e que mesmo assim se emociona e se fragiliza. Há um certo grau de humanização dessa figura política, aproximando-a dos usuários que acessam a publicação e da população do país que governa. A frase e o título complementam esse efeito, acrescentando ainda um outro sentido – o reconhecimento de uma mulher que passou pela ditadura militar, foi marcada por ela e, mesmo assim, chegou a uma posição de poder.


A introdução do texto traz à tona aspectos profundos da tortura, utilizando-se de palavras e termos que reafirmam o peso desse acontecimento: “inferno”, “massacrar uma pessoa”, “sofrimento, violência e solidão”, “relato vivo, real e doloroso”, “ver a morte de perto”, “enfrentar o medo e a solidão”. Assim, faz-se uma ambientação que demarca o posicionamento da formação discursiva ali presente: a ditadura militar se relaciona com todas essas palavras e termos, não sendo possível atribuir a ela qualquer outro discurso que a revele como benéfica.


Os fragmentos dos depoimentos de Dilma são introduzidos por títulos temáticos. O primeiro, “Marcas da tortura”, traz um panorama do contexto da prisão e suas supostas razões. Nele, Dilma utiliza, mais de uma vez, o verbo “acreditar”, explicitando a confusão ou a falta de precisão da memória: “Acredito hoje ter sido por isso que fui levada [...]”, “Acredito ter sido por isso que a tortura foi muito intensa [...]”. Em outro trecho, ela diz: “Em Minas não lembro, pois os lugares se confundem um pouco”. Se o testemunho é da ordem do indizível, também é do esquecimento: “o esquecer caminha lado a lado com o testemunho daqueles que querem registrar determinadas memórias” – é impossível lembrar-se de tudo” (MARIANI, 2016, p. 52) – principalmente em uma situação de violência extrema como a tortura, que visa a completa desestabilização do sujeito e desmantelamento de seu corpo e mente, e cujas estratégias são desenvolvidas com essa consciência.


Ao falar das sessões de tortura, é possível perceber que Dilma só menciona o nome dos agentes duas vezes: “[...] o Albernaz completou o serviço com um soco [...]” e “Tive o ‘prazer’ de conhecer o comandante general Sílvio Frota [...]”. Nas outras passagens, a predominância é da terceira pessoa, realçando a impessoalidade da situação: “[...] ele te bota no pau de arara [...]”, “Me deram uma injeção e disseram para não bater naquele dia [...]”, “Mas me davam choque elétrico e depois paravam”, “[...] eles não a deixavam me ver”, “Depois [vinham] as ameaças”, “Em São Paulo me ameaçaram de fuzilamento e fizeram a encenação”.


O apagamento do agente, essa impessoalidade, é traço fundante da tortura institucionalizada, uma vez que torna difícil o reconhecimento e a futura possibilidade de punição de seus mandantes e envolvidos. Na esfera histórica e discursiva, essa dificuldade é impressa na “passagem do visível ao nomeado” (PECHÊUX, 1999, p. 51). Ao tratar dessa passagem, Pechêux entende a imagem como um “operador de memória social”, que comporta em si um “programa de leitura” que provoca a repetição da imagem à recitação de um mito (idem, ibidem). Assim, em um imaginário recorrente em certas formações discursivas, a imagem de um coronel da ditadura militar transmite a ordem, a disciplina – graças, também, a esse apagamento estratégico da figura militar como aquela cruel e sádica dos depoimentos sobre a tortura. Resta somente o militar que obedece, cumpre ordens e é disciplinado – o cidadão de bem.


Quando se coloca como a própria marca da tortura – e não como alguém que foi marcado –, Dilma traz o trauma para um presente eterno, impossível de se superar, visto que é parte constituinte do sujeito: “Na situação testemunhal o tempo passado é tempo presente. [...] Mais especificamente, o trauma é caracterizado por ser uma memória de um passado que não passa. O trauma mostra-se, portanto como fato psicanalítico prototípico no que concerne à sua estrutura temporal” (SELIGMANN-SILVA, 2008, p. 69). Esse “furo”, de que fala Mariani, também é um furo que atravessa o tempo e a estabilização do discurso: “o acontecimento, no caso, desloca e desregula os implícitos associados ao sistema de regularização anterior” (PECHÊUX, 1999, p. 52). A verbalização por meio do testemunho não é, entretanto, a cura, mas sim a tentativa de elaborar uma cicatriz.


“DIANTE DA TORTURA, QUEM TEM CORAGEM E DIGNIDADE FALA MENTIRA”: RESISTÊNCIA E MENTIRA

Em 2008, o então senador Agripino Maia retomou o trecho de um depoimento de Dilma sobre a ditadura, no qual ela afirmava ter mentido para sobreviver à tortura. Isso foi utilizado pelo senador como tentativa de acusá-la de mentirosa e fazer juízo de seus valores morais, deslocando assim um primeiro efeito de “mentira”, que na declaração de Dilma está em relação com resistência e sobrevivência durante a tortura, para aquele que está no campo da imoralidade e que supostamente norteia a vida política da então ministra da Casa Civil.


Dilma, em sua resposta, explicita como operam os sentidos de mentira no campo da ditadura militar e da democracia: “Qualquer pessoa que ousar dizer a verdade para interrogadores compromete a vida dos seus iguais [...]. Eu me orgulho muito de ter mentido, porque mentir na tortura não é fácil. Agora, na democracia se fala a verdade. Diante da tortura, quem tem coragem e dignidade fala mentira” (0m50s).


Logo, enquanto no discurso de Agripino “mentira” está associada à “imoralidade”, no de Dilma o termo se associa à “orgulho”, “coragem” e “dignidade”. A verdade, por outro lado, está ao lado de “morte”: “O que mata na ditadura é que não há espaço para a verdade, porque não há espaço para a vida” (3m25s). Existe um nítido contraste entre os dois discursos – um claro exemplo da disputa da memória social da ditadura militar e a resistência a ela. De um lado, há o discurso que vincula a oposição à ditadura militar ao “terrorismo” – o próprio coronel Ustra, um dos torturadores de Dilma, afirmou que a ex-presidenta participou de “organizações terroristas” (MENDES, 2013) –, à “ameaça comunista” e à “imoralidade”. De outro, há o discurso que correlaciona essa oposição à “resistência”, “força” e “luta”.


Essa disputa, na política (que não se iniciou em 2008), culminou no golpe sofrido por Dilma em 2016 – ou impeachment, para essa formação discursiva na qual a fala de Agripino se insere –, que teve grande apoio popular de diversos setores e organizações (inclusive de esquerda e progressistas) sob a justificativa da “imoralidade”, “corrupção” e “mentira” – os mesmos termos que compõem o discurso que defende a ditadura militar e suas práticas de tortura.


A CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA NO JINGLE “CORAÇÃO VALENTE”

Pechêux (1999, p. 52) assimila a memória discursiva como “aquilo que, face a um texto que surge como acontecimento a ler, vem restabelecer os ‘implícitos’ (quer dizer, mais tecnicamente, os pré-construídos, elementos citados e relatados, discursos-transversos etc.) de que sua leitura necessita: a condição do legível em relação ao próprio legível”. Para o autor, há uma “dupla forma-limite” no processo de inserção do acontecimento na memória: o acontecimento que escapa à inscrição, que não chega a se inscrever; o acontecimento que é absorvido na memória, como se não tivesse ocorrido” (p. 50).


A memória, desse modo, não é estável e homogênea, mas sim um campo em constante disputa e reestruturação no qual se inserem (ou não) os acontecimentos. Isso se dá por diversos meios, da cultura popular à formulação de leis que visem a reparação de certos aspectos e danos diante do acontecimento. Mariani (idem, p. 52), retomando Yerushalmi (1988, p. 10), diz que “o antônimo de esquecimento não seria memória, mas sim justiça”, dizendo respeito à necessidade de tornar o acontecimento visível e nomeável em diversos âmbitos, inclusive no jurídico.


O jingle da campanha de reeleição de Dilma em 2014 fez parte de uma tentativa de perpetuar a disputa pela memória da ditadura militar, que já vinha se mostrando evidente em episódios como o de Agripino Maia. Em “Coração Valente”, a imagem de Dilma não é somente a da primeira mulher eleita presidenta, mas a de uma mulher cuja trajetória sempre foi política – uma crítica implícita ao adversário Aécio Neves –, exaltando seu importante papel no combate à ditadura militar.


“Coração Valente” se tornou um termo utilizado para se referir à ex-presidente mesmo após ela deixar o cargo, como se fosse um complemento de seu nome – a canção já se inicia dizendo “Dilma, coração valente”. É a consolidação da imagem de uma ex-guerrilheira como alguém que, com “força” e “garra”, se tornou presidenta. Essa apropriação de termos implica a associação Dilma Rousseff – ex-guerrilheira – resistência à ditadura militar – força – garra – resistência – valentia – presidenta.


A imagem do “coração” segue na esteira da humanização de sua figura pública; vale lembrar que Dilma sempre foi retratada pela grande mídia ora como uma mulher fria e mal-humorada, por não se adequar à cartilha da feminilidade, ora como explosiva e mandona. Como explica Carreon (2019, p. 10): “Dessa forma, o sujeito que possui os caracteres da coragem poderia ser visto como duro ou irredutível, no entanto, na tessitura de sentidos, povo, amor e esperança são mobilizados para construir um ethos amável de coragem, um ethos ao qual o povo quer aderir por amor”. Há, portanto, um deslocamento de sentido de “coragem”, que aqui está vinculado ao “amor”, e não à “violência”, como por vezes se encontra em formações discursivas.


O vídeo é construído com imagens de Dilma sendo carinhosa com os mais diversos tipos de pessoas: de apoiadores em comícios a trabalhadores da construção civil, passando por pessoas de baixa renda em suas casas. No verso “Você nunca vacilou em lutar em favor da gente”, a imagem de Dilma durante o período da ditadura militar é finalmente mostrada, mesmo que rapidamente. No vídeo, vêm-se imagens, em preto e branco, de manifestações contra a ditadura, de policiais na rua e de Dilma sendo interrogada em 1970. É uma maneira que, à primeira vista, parece sutil de inserir o combate à ditadura militar no espaço discursivo da “garra” e da “valentia”. Logo em seguida da imagem de uma manifestação contra o regime militar, uma imagem recente de Dilma sorrindo diante de uma multidão de pessoas aparece, como se para concluir sua trajetória de forma vitoriosa, mostrando os obstáculos superados.


Um outro aspecto do jingle a ser levado em consideração é a reafirmação da integridade moral e política da candidata à reeleição. Foi uma outra forma (também sutil) de rebater os ataques de seus adversários políticos – tendo em vista que o discurso sobre a “corrupção” dos governos petistas sempre foram o principal argumento contra o partido. Em repetição, a letra diz “Mulher de mãos limpas / Mulher de mãos livres / Mulher de mãos firmes”, ressaltando sua inteireza e dignidade.


Por fim, é a imagem de Dilma, de quando foi presa pela ditadura, que encerra o vídeo, em uma ilustração composta por arquivos (que remetem aos arquivos do regime militar), incluindo a ficha criminal de Dilma, imagens de manifestações e, novamente, da ex-presidenta sendo interrogada. Nota-se a inserção das cores da bandeira do Brasil junto ao vermelho – cor que é símbolo do PT, mas que aqui se incorpora ao sentido de “coração”. Pode-se interpretar a escolha dessa imagem para estar à frente da campanha como oriunda da urgência de se construir uma memória sobre a ditadura militar e a resistência a ela, de maneira a provocar e desestabilizar os discursos vigentes, como o de Agripino Maia, sobre o período. Assim, a imagem de Dilma torna-se o símbolo não só de uma campanha eleitoral, mas da história do país.


Figura 1. Ilustração de Dilma Rousseff utilizada na campanha de 2014.


CONCLUSÃO

Falar do período militar brasileiro é falar de trauma, luto, resistência e memória. O sujeito não é mais o mesmo ao sobreviver à tortura – ao ser objeto de um outro que é cruel e institucionalizado. Nesse sentido, a trajetória de Dilma Rousseff permite acompanhar e refletir os processos de alguém que chegou “do outro lado” do trauma: “Para o sobrevivente sempre restará este estranhamento do mundo advindo do fato de ele ter morado como que ‘do outro lado’ do campo simbólico” (SELIGMANN-SILVA, 2008, p. 5).


É fundamental ressaltar que o Brasil foi o último país a constituir uma Comissão da Verdade, e que isso só ocorreu em 2011, durante o governo de Dilma Rousseff. A importância do testemunho de Dilma e da utilização de sua imagem como símbolo de resistência à ditadura é parte indissociável do reconhecimento coletivo do trauma e da constituição da memória sobre o período, pois a ex-presidenta está direta e subjetivamente ligada ao objeto da Comissão. Orlandi (1992, p. 96) explica que “para a análise de discurso, não há discurso sem sujeito nem sujeito sem ideologia”. Logo, não há sujeito sem memória – e, sem memória, estaremos fadados à contínua repetição de barbaridades que nunca podem ser esquecidas.


REFERÊNCIAS

ALTHUSSER, L. (1970) Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado. Lisboa: Editorial Presença, 1974.

BOCCHI, A. F. A. Posições subjetivas em face da violência: traços constitutivos de memória em testemunhos de mulheres. Fórum Linguíst!co, v. 14 n. 1, 2017. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/forum/article/view/1984-8412.2017v14n1p1808/33780. Acesso em: 2 dez. 2022.

CARREON, R. Dilma Rousseff e o ethos de amável coragem: o corpo no feminino. Estudos Linguísticos (São Paulo. 1978), v. 48, n. 2, p. 728-746, jul. 2019.

DUNKER, C. “O impacto da tortura e da violência”. YouTube, 2019. Disponível em: http://youtu.be/DVNytdtY7cA. Acesso em: 3 dez. 2022.

GINZBURG, J. (2010) “Escritas da tortura”. In: TELES, E; SAFATLE, V. (orgs) O que resta da ditadura: a exceção brasileira. São Paulo: Boitempo, 2010.

HANISCH, C. “The personal is political”. Carolhanisch.org, fev. 1966. Disponível em: https://www.carolhanisch.org/CHwritings/PIP.html. Acesso em: 04 dez. 2022.

MARIANI, B. Testemunho: um acontecimento na estrutura. Revista Desenredo, v. 12, n. 1, 22 set. 2016. Disponível em: http://seer.upf.br/index.php/rd/article/view/5890/3896. Acesso em: 2 dez. 2022.

MARQUES, T. C. de N. O voto feminino no Brasil. Brasília: Câmara dos Deputados, Edições Câmara, 2ª edição, 2019.

MENDES, P. “Ustra diz que Dilma integrou grupo terrorista para implantar comunismo”. G1 (online), 10 mai. 2013. Disponível em: http://g1.globo.com/politica/noticia/2013/05/ustra-diz-que-dilma-integrou-grupo-terrorista-para-implantar-comunismo.html. Acesso em: 7 dez. 2022.

ORLANDI, E. P. (1992) “Silêncios e resistência”. In: As formas do silêncio: no movimento dos sentidos. Campinas: Editora da Unicamp, 1995.

PÊCHEUX, M. Papel da memória. In: ACHARD, P. et al. (Org.) Papel da memória. Campinas: Pontes, 1999.

SELIGMANN-SILVA, M. Narrar o trauma: a questão dos testemunhos de catástrofes históricas. PSIC. CLIN., RIO DE JANEIRO, VOL. 20, N. 1, P. 65-82, 2008. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pc/a/5SBM8yKJG5TxK56Zv7FgDXS/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 6 dez. 2022.




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